|

|
|
|
|

|
|
Curuca

m aventurosas expedições de caça realizadas nas décadas de 1950 e 1960, nos sertões do Brasil Central e da Amazônia brasileira, tive oportunidade de entrar em contato com tribos indígenas ainda em plena posse de suas primitivas tradições. Seu fabulário, intacto e isento de influências civilizadas, mantinha vivos os mitos semideuses que habitavam campos e florestas em início de
desbravamento. Através de intérpretes, entrevistei pagés de diversas tribos que se diziam capazes de atrair o Curupira e com ele dialogar, transmitindo-lhe pedidos de perdão pelas faltas cometidas por elementos das comunidades indígenas. Então, na plenitude de minhas forças físicas e mentais e no ápice da carreira de caçador e mateiro, eu era quase um ameríndio, pelo estoicismo com que enfrentava as agruras da vida selvagem e também pelo domínio pleno da sensibilidade necessária para penetrar nos segredos da cultura indígena.
Aceito como companheiro de alguns grupos gentílicos, foi-me permitindo participar de estranhos rituais de pagelança, nos quais era invocada a presença do Curupira. Não podia dizer que tinha sentido a mais leve impressão de sua presença. Ao comentar com o pagé de certa tribo minha dificuldade em estabelecer contato com a entidade que muito me interessava, por ser protetor dos animais que eu caçava e abatia, escutei dele apenas uma frase, suficiente para explicar o fracasso de minhas iniciativas:
- Branco caçador
tem que largar as tralhas e entrar limpo no mato...
Lembrei-me então de conto escrito por Willian Fulker, em que o personagem principal tentava entrar em contato com um urso terrível que lhe destroçava a matilha de cães de caça e assolava as florestas do delta do Missipi, predando animais domésticos e afugentando colonos de seus sítios. O índio semicivilizado, que lhe servia de guia e preceptor, aconselhou-o a penetrar na mata despido de suas armas para não afugentar a fera - que as temia. O jovem deixou seu equipamento à beira da floresta, entrando nela munido apenas de bússola e de uma vara, esta para se defender das serpentes venenosas. Seguiu até encontrar vestígios da fera. Mas, apesar de sua concentração no firme propósito de observar o animal, continuou sem estabelecer contato. Lembrou-se então que ainda transportava objetos estranhos à natureza e que o auxiliavam " a esgrimir a solidão" . Pendurando a bússola na forquilha de um arbusto e abandonando a vara, prosseguiu em sua busca obstinada. Foi então, que à beira de um regato, materializou-se diante dele a figura enorme de um urso velho, mais imponente que agressivo.
Ambos se fitaram no fundo dos olhos, com respeito sem temor um do outro. Ficaram assim por tempo incomensurável, até que o urso, tão subtamente como apareceu, dissolveu-se na penumbra da floresta. O caçador convenceu-se de que o animal viera ao seu encontro para experimentar-lhe a coragem e dizer-lhe que sua busca ali terminava...

|
|