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Visionários da Natureza

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poucas dezenas de séculos, a Terra assistiu à impune e sistemática destruição
de milhões de quilômetros quadrados de florestas, de milhares de espécies de
animais e plantas, de centenas de rios e lagos. Poluiu-se os mares.
Isso ocorreu de
maneira sistemática e abrangente, até muito pouco tempo - e infelizmente,
continua a acontecer, apenas de maneira um pouco menos grave.
No Brasil, não
poderia ter sido diferente.
Nos idos dos
sessenta, não havia os caciques Juruna (e seu gravador), Terena e outros, que,
anos depois, passariam a denunciar a violência dos homens contra a floresta.
Nem o Sting, fazendo campanhas internacionais em defesa da Amazônia, ou muitas
ONGs, que começariam a se preocupar seriamente com a derrubada das árvores,
com o buraco de ozônio, com o lixo nuclear ou com a brutal poluição das águas
e do ar.
Mas, já naquele
tempo, alguns visionários da natureza discutiam esses assuntos, com emoção e
extrema preocupação.
 Os irmãos
Villas-Boas, Dalgas Frish, Augusto Rushi, Martim Bueno de Mesquita, Osvaldo
Penha Gessulli e outros, poucos praticamente pegavam no deserto. Meio ambiente,
ecossistema, preservação da natureza? Ora, isso é coisa de diletantes, de
quem não tem o que fazer, dos que são contra o progresso e o desenvolvimento.
Felizmente para
todos, a pregação desses visionários germinou, cresceu, fortaleceu-se.
Juntou-se à consciência que, em todos os quadrantes, passaria a dominar as
discussões neste final de século: os homens não podem continuar agredindo e
estuprando a natureza sob pena de destruição da Terra.
Hoje, milhões de
pessoas, no mundo inteiro, sabem que é preciso salvar e preservar a natureza.
Ecologia, defesa do meio ambiente, desenvolvimento sustentado são as novas
palavras-de-ordem de todo cidadão consciente de seus deveres para com a
sociedade. Elas passaram a fazer parte de currículos escolares de jardins de
infância de países desenvolvidos e da maioria dos países em desenvolvimento,
exatamente aqueles que ainda têm o que salvar.
Movimentam-se bilhões
de dólares no que se tornou uma verdadeira indústria e um verdadeiro comércio
da salvação e preservação da natureza.
O Assunto passou a ser importante instrumento de marketing político e
institucional de governos, organizações, entidades, partidos.
Mas, naqueles anos
sessenta, como era difícil pregar no deserto!
Lembro-me das
longas conversas com Orlando Villas-Boas, velho amigo dos tempos do 'Jornal da
Tarde' - ainda hoje, continuamos a falar daqueles mesmos problemas. Ou dos
planos discutidos com o Osvaldinho Gessulli, que nos levaram a lançar, há uns
30 anos, a 'Revista do Verde', uma das primeiras tentativas - se não a primeira
- de criar uma publicação voltada para a ecologia e o meio ambiente no Brasil.
Infelizmente, no
entanto, nosso maior sonho não se realizou.
Naquele deserto de
consciência preservacionista, a 'Revista do Verde' teve vida curta.
O que não nos
impediu de, visionários impenitentes, pensarmos numa publicação ainda mis
ambiciosa, que levaria às crianças, nas escolas de todo o Brasil, a semente
das mudanças que não poderiam deixar de ocorrer num futuro próximo.
O Curupira e o
Caapora, pelo que representa em nosso folclore, foram escolhidos como os símbolos
da ruptura com o passado. Juntos, o corpo de criança e o morador do mato,
seriam o instrumento de uma mudança inevitável.
Mais uma vez, no
entanto, o deserto de idéias foi mais forte que o idealismo e o visionarismo de
alguns. Em pouco tempo, Curuçá tornou-se apenas mais um sonho.
Do início do sonho
até hoje, quantas milhares de crianças deixaram de aprender a importância da
preservação do meio ambiente?
Quanto perdemos,
cada um de nós, com o atraso a que foi relegada a consciência de que precisávamos,
desde sempre, proteger cada árvore, cada planta, cada animal, cada rio?
Quase trinta anos
depois, felizmente, esse sonho começa a se tornar realidade, e pelas mãos de
alguns daqueles mesmos visionários de então.
Por tudo isso, seja
muito bem-vinda, Curuçá!
Cumpra seu papel!
Miguel Jorge
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